Relação entre Níveis GMFCS e Seleção de Músculos/Doses de Toxina Botulínica em Doentes Pediátricos Paralisia Cerebral: Coorte Retrospetiva de 17 Anos
DOI:
https://doi.org/10.25759/spmfr.566Palavras-chave:
Reabilitação Pediátrica, Toxina Botulínica, Neurotoxina, Espasticidade, Paralisia Cerebral, Gross Motor Function Classification SystemResumo
Resumo
Introdução
A toxina botulínica tipo A (BoNT-A) é amplamente utilizada no tratamento da espasticidade focal em idade pediátrica, particularmente em crianças com paralisia cerebral (PC), a principal causa de espasticidade nesta população. As injeções de BoNT-A têm como objetivo melhorar a funcionalidade, os padrões de marcha, o posicionamento, a higiene, a aparência estética e o controlo da dor. Os músculos mais frequentemente tratados incluem os adutores, isquiotibiais, gastrocnémios e flexores do membro superior.
Objetivos
O objetivo principal deste estudo foi analisar a utilização de onabotulinumtoxinA e abobotulinumtoxinA em crianças com PC, avaliando a relação entre o nível do Gross Motor Function Classification System (GMFCS) e os músculos-alvo. O objetivo secundário consistiu em analisar dados demográficos, diagnóstico, doses administradas e reações adversas.
Métodos
Este estudo retrospetivo observacional incluiu todas as crianças com menos de 19 anos que receberam tratamento com BoNT-A num Serviço de Medicina Física e de Reabilitação entre 2007 e 2023. Os critérios de inclusão englobaram crianças seguidas regularmente em consultas de reabilitação, tratadas com BoNT-A no âmbito de um programa estruturado de seguimento, envolvendo injeções frequentes e sequenciais de toxina. Estas crianças realizaram também fisioterapia regular e estavam incluídas num programa de vigilância da luxação da anca.
Resultados
Foram avaliadas 163 crianças (74 raparigas, 89 rapazes; idade média 8,8 ± 4,4 anos) com diagnóstico de PC, que receberam um total de 883 injeções de BoNT-A (627 com onabotulinumtoxinA e 256 com abobotulinumtoxinA). A dose média de onabotulinumtoxinA foi de 187 UI (10,2 UI/kg), enquanto a de abobotulinumtoxinA foi de 564 UI (19,0 UI/kg). Observaram-se diferenças significativas entre crianças deambulantes (GMFCS ≤ 3) e não deambulantes (GMFCS > 3), quer na dose total (p < 0,001) e dose/kg (p < 0,001) de onabotulinumtoxinA, quer na dose/kg de abobotulinumtoxinA (p < 0,001). Os músculos mais frequentemente injetados em crianças não deambulantes foram os adutores e isquiotibiais, enquanto nas crianças deambulantes predominaram o gastrocnémio, sóleo e tibial posterior. Não foram reportadas reações adversas graves nem alergias.
Conclusões
A BoNT-A é um tratamento eficaz e seguro da espasticidade em crianças em todos os níveis do GMFCS. A seleção individualizada dos músculos e a definição da dose em função da funcionalidade e dos objetivos terapêuticos são essenciais para otimizar os resultados e prevenir deformidades.
Downloads
Referências
Dressler D, Adib Saberi F. Botulinum toxin: mechanisms of action. Arq Neuropsiquiatr. 2005;63(1):180-185. doi:10.1590/S0004-282X2005000100035.
Blumetti FC, Belloti JC, Tamaoki MJS, Pinto JA. Botulinum toxin type A in the treatment of lower limb spasticity in children with cerebral palsy. Cochrane Database Syst Rev. 2019;(10):CD001408. doi:10.1002/14651858.CD001408.pub2.
Kaya Keles CS, Ates F. Botulinum toxin intervention in cerebral palsy-induced spasticity management: projected and contradictory effects on skeletal muscles. Toxins (Basel). 2022;14(11):772. doi:10.3390/toxins14110772.
Oskoui M, Coutinho F, Dykeman J, Jetté N, Pringsheim T. An update on the prevalence of cerebral palsy: a systematic review and meta-analysis. Dev Med Child Neurol. 2013;55(6):509-519. doi:10.1111/dmcn.12080.
Rosenbaum P, Paneth N, Leviton A, Goldstein M, Bax M, Damiano D, et al. A report: the definition and classification of cerebral palsy, April 2006. Dev Med Child Neurol Suppl. 2007;109:8-14. doi:10.1111/j.1469-8749.2007.tb12610.x.
Palisano R, Rosenbaum P, Walter S, Russell D, Wood E, Galuppi B. Development and reliability of a system to classify gross motor function in children with cerebral palsy. Dev Med Child Neurol. 1997;39(4):214-223. doi:10.1111/j.1469-8749.1997.tb07414.x.
Palisano RJ, Rosenbaum P, Bartlett D, Livingston MH. Content validity of the expanded and revised Gross Motor Function Classification System. Dev Med Child Neurol. 2008;50(10):744-750. doi:10.1111/j.1469-8749.2008.03089.x.
Novak I, McIntyre S, Morgan C, Campbell L, Dark L, Morton N, et al. A systematic review of interventions for children with cerebral palsy: state of the evidence. Dev Med Child Neurol. 2013;55(10):885-910. doi:10.1111/dmcn.12246.
Novak I, Morgan C, Fahey M, Finch-Edmondson M, Galea C, Hines A, et al. State of the evidence traffic lights 2019: systematic review of interventions for preventing and treating children with cerebral palsy. Curr Neurol Neurosci Rep. 2020;20(2):3. doi:10.1007/s11910-020-1022-z.
Lin CY, Chung CH, Matthews DJ, Chu HY, Chen LC, Yang SS, et al. Long-term effect of botulinum toxin A on the hip and spine in cerebral palsy: a national retrospective cohort study in Taiwan. PLoS One. 2021;16(7):e0255143. doi:10.1371/journal.pone.0255143.
Flemban A, Elsayed W. Effect of combined rehabilitation program with botulinum toxin type A injections on gross motor function scores in children with spastic cerebral palsy. J Phys Ther Sci. 2018;30(7):902-905. doi:10.1589/jpts.30.902.
Heinen F, Desloovere K, Schroeder AS, Berweck S, Borggraefe I, van Campenhout A, et al. The updated European consensus 2009 on the use of botulinum toxin for children with cerebral palsy. Eur J Paediatr Neurol. 2010;14(1):45-66. doi:10.1016/j.ejpn.2009.09.005.
Choi JY, Kim SK, Park ES. The effect of botulinum toxin injections on gross motor function for lower limb spasticity in children with cerebral palsy. Toxins (Basel). 2019;11(11):651. doi:10.3390/toxins11110651.
Strobl W, Theologis T, Brunner R, Kocer S, Viehweger E, Pascual-Pascual I, et al. Best clinical practice in botulinum toxin treatment for children with cerebral palsy. Toxins (Basel). 2015;7(5):1629-1648. doi:10.3390/toxins7051629.
Multani I, Manji J, Hastings-Ison T, Khot A, Graham HK. Botulinum toxin in the management of children with cerebral palsy. Paediatr Drugs. 2019;21(4):261-281. doi:10.1007/s40272-019-00344-8.
Franzén M, Hägglund G, Alriksson-Schmidt AI. Treatment with botulinum toxin A in a total population of children with cerebral palsy: a retrospective cohort registry study. BMC Musculoskelet Disord. 2017;18:520. doi:10.1186/s12891-017-1880-y.
Vova JA, et al. A consensus statement on the use of botulinum toxin in pediatric patients. PM R. 2022. doi:10.1002/pmrj.12713.
Ipsen Biopharmaceuticals. Dysport® (abobotulinumtoxinA) prescribing information. Silver Spring (MD): US Food and Drug Administration; 2023. Available from: https://www.accessdata.fda.gov/drugsatfda_docs/label/2023/125274s100lbl.pdf
Allergan Inc. Botox® (onabotulinumtoxinA) prescribing information. Silver Spring (MD): US Food and Drug Administration; 2021. Available from: https://www.accessdata.fda.gov/drugsatfda_docs/label/2021/103000s5306lbl.pdf
Brin MF, Nelson M, Ashourian N, Brideau-Andersen A, Maltman J. Update on non-interchangeability of botulinum neurotoxin products. Toxins (Basel). 2024;16(6):266. doi:10.3390/toxins16060266.
Field M, Splevins A, Picaut P, van der Schans M, Langenberg J, Noort D, Snyder D, Foster K. AbobotulinumtoxinA (Dysport®), onabotulinumtoxinA (Botox®), and incobotulinumtoxinA (Xeomin®) neurotoxin content and potential implications for duration of response in patients. Toxins (Basel). 2018;10(12):535. doi:10.3390/toxins10120535.
Deshpande N, Gormley ME, Deshpande S. Safety of botulinum toxin injections in children less than one year old: a retrospective chart review. J Pediatr Rehabil Med. 2024;17(1):67-73. doi:10.3233/PRM-220003.
Pascual-Pascual SI, Pascual-Castroviejo I. Safety of botulinum toxin type A in children younger than 2 years. Eur J Paediatr Neurol. 2009;13(6):511-515. doi:10.1016/j.ejpn.2008.10.006.
Edwards P, Sakzewski L, Copeland L, Gascoigne-Pees L, McLennan K, Thorley M, et al. Safety of botulinum toxin type A for children with nonambulatory cerebral palsy. Pediatrics. 2015;136(5):895-904. doi:10.1542/peds.2015-0749.
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Secção
Licença
Direitos de Autor (c) 2026 Revista da Sociedade Portuguesa de Medicina Física e de Reabilitação

Este trabalho encontra-se publicado com a Licença Internacional Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0.
Os manuscritos devem ser acompanhados de declaração de originalidade, Autoria e de cedência dos direitos de propriedade do artigo, assinada por todos os Autores.
Quando o artigo é aceite para publicação é obrigatória a submissão de um documento digitalizado, assinado por todos os Autores, com a partilha dos direitos de Autor entre Autores e a Revista SPMFR, conforme minuta:
Declaração Copyright
Ao Editor-chefe da Revista da Sociedade Portuguesa de Medicina Física e Reabilitação
O(s) Autor(es) certifica(m) que o manuscrito intitulado:
____________________________________________________________________ (ref.Revista da SPMFR_________) é original, que todas as afirmações apresentadas como factos são baseados na investigação do(s) Autor(es), que o manuscrito, quer em parte quer no todo, não infringe nenhum copyright e não viola nenhum direito da privacidade, que não foi publicado em parte ou no todo e que não foi submetido para publicação, no todo ou em parte, noutra revista, e que os Autores têm o direito ao copyright.
Todos os Autores declaram ainda que participaram no trabalho, se responsabilizam por ele e que não existe, da parte de qualquer dos Autores conflito de interesses nas afirmações proferidas no trabalho.
Os Autores, ao submeterem o trabalho para publicação, partilham com a Revista da SPMFR todos os direitos a interesses do copyright do artigo.
Todos os Autores devem assinar
Data:
Nome(maiúsculas)
Assinatura
Relativamente à utilização por terceiros a Revista da SPMFR rege-se pelos termos da licença Creative Commons “Atribuição – uso Não-Comercial – Proibição de Realização de Obras derivadas (by-nc-nd)”.
Após publicação na Revista SPMFR, os Autores ficam autorizados a disponibilizar os seus artigos em repositórios das suas instituições de origem, desde que mencionem sempre onde foram publicados.
OS AUTORES DEVERÃO SUBMETER UMA DECLARAÇÃO DE CONTRIBUIÇÃO / CONTRIBUTORSHIP STATEMENT INDICANDO O TIPO DE PARTICIPAÇÃO DE CADA AUTOR NO ARTIGO. Mais informações: https://authors.bmj.com/policies/bmj-policy-on-authorship/
