Consequências da Primeira Vaga da Pandemia COVID-19 em Doentes com Lesão Medular Crónica: Impacto na Dor, Espasticidade e Funcionalidade

Margarida Mota Freitas, Luís Sousa, Ana Margarida Ribeiro, Raquel Araújo, Sara Amaral, Maria João Andrade

Resumo


Introdução: A doença causada pelo vírus SARS-CoV-2 (COVID-19) é uma emergência de saúde internacional, que atingiu proporções de pandemia mundial. Desde março de 2020, foram aplicadas em Portugal medidas para evitar a propagação do vírus, incluindo a suspensão temporária, quase total, dos tratamentos de reabilitação em ambulatório. Os doentes com lesão medular crónica apresentam um risco aumentado de desenvolverem formas graves de COVID-19. Por outro lado, são doentes que necessitam de tratamento de reabilitação para controlar e prevenir complicações decorrentes da lesão medular. O objetivo deste estudo foi avaliar o impacto da primeira vaga da pandemia por COVID-19 na evolução clínica dos doentes com lesão medular crónica, nomeadamente quanto à dor, espasticidade e funcionalidade.

Material e Métodos: Trata-se de um estudo observacional transversal. Foi aplicado um questionário telefónico a um conjunto de doentes com lesão medular crónica, seguidos em consulta de Medicina Física e de Reabilitação. O questionário aplicado permitiu comparar dor, espasticidade e funcionalidade antes da pandemia e seis meses após o seu início.

Resultados: Após terem sido aplicados critérios de exclusão, a amostra incluiu um total de 65 participantes. Todos os doentes que estavam previamente a fazer tratamentos de fisioterapia, suspenderam-nos. Seis meses após o início da pandemia em Portugal, 24,6% dos doentes referiam agravamento das queixas álgicas; 26,2% notaram aumento da espasticidade e 21,5% apresentavam diminuição da funcionalidade.

Nesta amostra, 12,3% dos doentes referiam aparecimento de novas úlceras de pressão ou agravamento das prévias. Pacientes com lesão medular cervical tiveram maior agravamento da espasticidade do que aqueles com lesão dorsal ou lombar (p=0,003). Por outro lado, doentes com lesão lombar apresentaram maior intensificação das queixas álgicas (p=0,029). Doentes com lesão incompleta motora tiveram maior agravamento da dor, quando comparados com doentes com lesão completa ou incompleta sensitiva (p=0,007).

Conclusão: A pandemia por COVID-19 e a sua interferência no tratamento está a ter um impacto importante nos doentes com lesão medular crónica, levando ao agravamento de dor, espasticidade e diminuição da autonomia. A espasticidade agravou mais em doentes com lesão cervical enquanto que a dor piorou mais significativamente em doentes com lesão lombar e lesão incompleta motora.


Palavras-chave


COVID-19; Lesões Medulares/ complicações; Lesões Medulares/reabilitação; SARS-CoV-2

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DOI: http://dx.doi.org/10.25759/spmfr.445

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Revista da Sociedade Portuguesa de Medicina Física e de Reabilitação